Como engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich nota que indústrias de alimentos, bebidas, papel e celulose geram toneladas de resíduos orgânicos por dia, tratados historicamente como passivo ambiental e custo operacional. A contradição desse modelo fica evidente quando se observa que esses mesmos resíduos, submetidos à digestão anaeróbia controlada, produzem biogás em volume suficiente para suprir parte significativa da demanda energética da planta. A coprodução de energia transforma um problema em receita e reposiciona a gestão de resíduos no centro da estratégia industrial.
A origem dos resíduos orgânicos industriais
Indústrias de processamento de alimentos geram efluentes com alta carga orgânica, borras de produção, subprodutos de abate e restos de matéria-prima que, somados, representam um volume expressivo de material biodegradável. A caracterização desses resíduos, com análise de DQO, DBO, sólidos voláteis e potencial de produção de metano, é a etapa inicial de qualquer projeto de recuperação energética.
O setor sucroalcooleiro, por exemplo, utiliza a vinhaça e o bagaço de cana há décadas em sistemas de cogeração, mas outros segmentos industriais começam agora a explorar o potencial energético de seus próprios resíduos. A maturidade tecnológica dos biodigestores permite hoje a aplicação em escalas variadas, desde pequenas agroindústrias até grandes complexos industriais. O mapeamento detalhado dos fluxos de resíduos dentro da planta é essencial para dimensionar corretamente o sistema de biodigestão.
Digestão anaeróbia e produção de biogás
Reatores anaeróbios de fluxo ascendente com manta de lodo (UASB), reatores de leito fixo e digestores de mistura completa são as tecnologias mais utilizadas para a conversão de resíduos orgânicos em biogás. A escolha do sistema depende da concentração de sólidos, da vazão do efluente e da presença de substâncias inibidoras, como amônia e sulfatos, informa Odair José Mannrich.

O biogás produzido, composto por metano entre 55% e 70%, pode ser queimado diretamente em caldeiras para geração de vapor, utilizado em motores de cogeração para produção simultânea de eletricidade e calor, ou purificado para obtenção de biometano. Cada uma dessas rotas apresenta custos e retornos diferentes, e a análise econômica deve considerar o perfil de consumo energético da planta industrial. O controle rigoroso da temperatura e do pH no interior dos reatores é determinante para a estabilidade do processo biológico e para a maximização da produção de metano.
Purificação e obtenção de biometano
A purificação do biogás por absorção química, adsorção por variação de pressão ou membranas remove o gás carbônico e outros contaminantes, elevando o teor de metano para níveis comparáveis ao gás natural veicular ou de rede. O biometano pode substituir o gás natural fóssil em processos industriais, reduzindo a pegada de carbono da operação e gerando créditos de descarbonização, indica Odair José Mannrich.
A injeção de biometano na rede de gás natural canalizado exige atendimento a especificações técnicas rigorosas, mas abre um mercado amplo para a venda do combustível. O investimento em plantas de purificação se justifica quando há escala de produção e proximidade com redes consumidoras, pondera o especialista. A remoção de siloxanos e sulfeto de hidrogênio nas etapas de polimento é crítica para preservar a vida útil dos equipamentos e motores alimentados pelo biocombustível.
Integração com a estratégia industrial
Odair José Mannrich reforça que a coprodução de energia a partir de resíduos orgânicos altera a equação econômica das indústrias, reduzindo custos com disposição final, com compra de energia elétrica e com combustíveis fósseis. O retorno sobre o investimento em biodigestores varia conforme o porte da planta e a tarifa de energia praticada na região, mas costuma ocorrer em prazos compatíveis com os ciclos de investimento industrial.
Além do ganho econômico, a recuperação energética de resíduos orgânicos fortalece o posicionamento ambiental da empresa, atende a exigências de certificações internacionais e abre portas para mercados cada vez mais sensíveis à pegada de carbono. A transformação do passivo em receita consolida o biogás como vetor estratégico da descarbonização industrial. Por fim, a integração com sistemas de gestão ambiental corporativa e a mensuração transparente das reduções de emissões ampliam os benefícios competitivos dessa solução.