O artigo publicado no Estadão afirma que, para o pesquisador Edemilson Paraná, o ativo digital discutido no texto Bitcoin nunca será dinheiro e, se for, deixará de ser cripto, diz pesquisador, não possui as condições econômicas e políticas necessárias para se consolidar como uma moeda global reconhecida e funcional no sistema financeiro tradicional. Essa avaliação parte da ideia de que um meio de troca universal exige não apenas tecnologia, mas também poder institucional, apoio de entidades regulatórias e reconhecimento social sólido para desempenhar funções essenciais dentro de uma economia complexa, algo que o ativo digital analisado não atingiu.
Uma das principais razões por trás dessa conclusão é que o ativo digital depende fortemente do aval de instituições financeiras e órgãos reguladores para ganhar relevância significativa no mercado financeiro. Sem esse reconhecimento, a dinâmica de preço e a atratividade do ativo ficam mais ligadas à expectativa especulativa do que a uma funcionalidade real como meio de troca. A conclusão é que, enquanto o sistema financeiro tradicional oferece estabilidade institucional e uma base legal definida, o ativo digital ainda carece dessas características para se firmar como um equivalente funcional ao dinheiro.
Além disso, há argumentos que vão além da análise jornalística e chegam à discussão acadêmica: especialistas têm tratado o ativo digital mais como uma commodity digital especulativa do que como uma moeda verdadeira, enfatizando que ele não opera como um equivalente geral para produtos e serviços, nem funciona como unidade de conta estável. Essa perspectiva reforça a ideia de que, apesar de ser negociado globalmente, o ativo não desempenha as funções básicas de um sistema monetário tradicional.
Outro elemento observado por pesquisadores é a relação entre o ativo digital e o poder estatal. A história do dinheiro mostra que ele sempre foi uma construção política e social, onde o valor e a aceitação dependem de um sistema institucional robusto que garanta sua circulação e uso. Quando um ativo se propõe a retirar a influência dessas estruturas, acaba lidando com um paradoxo: por mais descentralizado que seja em termos tecnológicos, ainda precisa de reconhecimento coletivo para funcionar como dinheiro. Essa tensão entre tecnologia e política monetária contribui para a visão de que o ativo dificilmente substituirá as moedas emitidas por governos.
É importante também considerar o ambiente de mercado em que esse ativo se encontra. O crescimento e a atenção que o ativo vem recebendo não necessariamente refletem sua adoção como moeda funcional, mas muitas vezes sua atratividade como objeto de investimento e especulação financeira. Muitos agentes veem a possibilidade de ganhos de curto prazo como um forte motivador para sua negociação, distanciando-o ainda mais do papel de meio de pagamento corrente.
Apesar das críticas, alguns analistas reconhecem que o sistema de transações digitais tem provocado inovações importantes nos métodos de pagamento e no design de moedas digitais emitidas por bancos centrais. Essas influências se manifestam em iniciativas que exploram tecnologia de registro distribuído para aumentar a eficiência e reduzir custos de transações, mesmo que não estejam diretamente vinculadas ao ativo em si.
Há ainda uma diferença clara entre reconhecer o impacto tecnológico de algo e afirmar que ele vai se tornar a forma dominante de dinheiro no mundo. A evolução de sistemas de pagamento e de moedas digitais está em curso, mas isso não garante que esse ativo específico se torne um padrão monetário global ou substitua as moedas tradicionais. A adoção real e contínua em escala mundial é um processo complexo que depende de fatores econômicos, políticos, regulatórios e culturais amplos.
Por fim, a discussão sobre o futuro das formas de dinheiro e ativos digitais permanece aberta. Embora muitos vejam nessa tecnologia uma oportunidade de reduzir intermediários ou criar novas formas de interação financeira, a realidade institucional e histórica da economia mostra que dinheiro não é apenas uma questão técnica, mas também uma construção social profundamente ligada ao reconhecimento coletivo e ao suporte de estruturas de poder estabelecidas.
Autor : Joseph Lemes