Hashrate da rede recuou 17,5% no primeiro semestre de 2026, um movimento raro que reacende debate sobre a saúde do setor de mineração.
Um dado técnico, mas revelador, chamou atenção de quem acompanha de perto a infraestrutura por trás do Bitcoin. Segundo dados da Hashrate Index, o hashrate da rede, métrica que mede o poder computacional total dedicado à mineração, caiu 17,5% no primeiro semestre de 2026, saindo de 1.066 exahashes por segundo (EH/s) em 1º de janeiro para 879 EH/s em 13 de julho. É a primeira vez em cinco anos que essa métrica fecha um semestre abaixo do nível em que começou. A dúvida que fica é direta: o que está levando tantos mineradores a desligar suas máquinas, e isso representa um risco para a segurança da rede?
Por que o hashrate está caindo
O precedente mais próximo dessa queda aconteceu em 2021, quando o hashrate despencou 25,9% no primeiro semestre daquele ano, muito por causa da proibição da mineração de criptomoedas imposta pela China aos mineradores locais. Desta vez, porém, a causa é predominantemente econômica, e não regulatória. A queda expressiva no preço do Bitcoin ao longo do ano, que saiu de cerca de US$ 126 mil em outubro de 2025 para a faixa entre US$ 60 mil e US$ 65 mil em boa parte de 2026, reduziu drasticamente a receita dos mineradores, tornando a operação inviável para equipamentos mais antigos e menos eficientes.
Esse cenário fica ainda mais claro quando se observa o chamado hashprice, indicador que mede a receita diária gerada por unidade de poder computacional. Segundo o boletim semanal da própria Hashrate Index, publicado em 13 de julho, o hashprice em dólares estava na casa de US$ 30,88 por petahash por segundo ao dia, um patamar considerado próximo ou até abaixo do ponto de equilíbrio para boa parte dos operadores, dependendo do custo de energia elétrica de cada instalação. Quando a receita fica tão apertada, máquinas mais antigas simplesmente deixam de compensar o custo de eletricidade e são desligadas.
O impacto da migração de energia para inteligência artificial
Além da pressão de preço, outro fator tem contribuído para tirar capacidade de mineração do mercado: a realocação de infraestrutura energética para atender à demanda crescente por inteligência artificial e computação de alto desempenho. Reportagem da BeInCrypto detalhou que, em um dos maiores recuos de dificuldade da rede em 2026, parte da capacidade de mineração foi redirecionada para esses novos usos, já que operadores de data centers encontraram nesses serviços uma alternativa mais rentável em determinados momentos do ciclo.
Esse movimento levanta uma questão relevante sobre o futuro da mineração de Bitcoin. Historicamente, a atividade cresceu de forma praticamente ininterrupta desde a criação da criptomoeda, com breve exceção do episódio chinês de 2021. Ver operadores optando por desviar energia e capital para outros setores, mesmo que temporariamente, é um sinal de que a mineração de Bitcoin está competindo diretamente por recursos escassos, como energia elétrica barata, com outras indústrias de tecnologia em expansão acelerada.
O que essa queda significa para a segurança da rede
Apesar da queda expressiva, é importante colocar o número em contexto. Mesmo nos patamares atuais, o hashrate da rede Bitcoin segue muito superior ao observado há poucos anos, e a dificuldade de mineração, mecanismo que ajusta automaticamente a complexidade dos blocos a cada 2.016 blocos minerados, se adapta justamente para manter o tempo médio de criação de blocos próximo de dez minutos, independentemente de quantos mineradores estão ativos.
Isso significa que uma queda no hashrate não compromete imediatamente a segurança da rede, mas indica que o custo de atacá-la ficou temporariamente menor, já que menos poder computacional total está protegendo o sistema. Analistas do setor costumam observar esse tipo de oscilação como parte natural do ciclo entre halvings, eventos que reduzem pela metade a recompensa paga aos mineradores a cada aproximadamente quatro anos, forçando reajustes constantes na economia da mineração.
Para quem acompanha o setor, o episódio serve como lembrete de que a saúde da rede Bitcoin depende de um equilíbrio delicado entre preço do ativo, custo de energia e evolução tecnológica dos equipamentos de mineração. Embora o recuo do hashrate não represente um risco imediato, ele mostra como a mineração continua sendo uma atividade sensível a fatores externos, da flutuação do preço da criptomoeda até a disputa por energia elétrica com outros setores da economia digital.
Fontes: